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Reforma gera medos e incertezas aos trabalhadores e pode interferir na dinâmica familiar se aprovada


A imagem ideal de uma boa aposentadoria para a maior parcela dos trabalhadores é de um período da vida em que será possível viajar, praticar hobbies que não couberam na correria de uma semana de trabalho e gozar dos benefícios que passaram uma vida inteira para serem conquistados. No entanto, a tão sonhada época de descanso já é vista de forma mais distante após a apresentação do projeto de reforma da Previdência. Enquanto não é aprovada, para os contribuintes resta a incerteza de saber se e quando vão conseguir se aposentar.

O carteiro Manassés Martins de Freitas teve a carteira de trabalho assinada pela primeira vez aos 17 anos e já soma 34 anos de contribuição. Pelos cálculos de Martins, nas regras atuais, faltaria pouco mais de um ano para já poder fazer a solicitação do benefício. Já a estimativa da calculadora desenvolvida pelo Sistema Verdes Mares, que leva em consideração as regras propostas pela equipe econômica de Bolsonaro, revela que Martins deverá contribuir por mais nove anos para ter direito à aposentadoria integral.

"Eu pensei que já estava perto de me aposentar, mas parece que, caso seja aprovada mesmo essa reforma, eu vou ter que trabalhar por mais tempo. Aí uns dizem que vou ter que pagar um pedágio, outros dizem que não vou ser incluído nessas novas regras. A gente fica sem saber qual vai ser o nosso destino", lamenta o carteiro.

Prejuízo para todos

Para o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Reginaldo Aguiar, as mudanças prejudicam não somente os de idade mais avançada, mas a família em volta desta pessoa também. "O Nordeste tem uma forte característica que é a renda baixa, com uma população altamente dependente de programas sociais e também da renda dos idosos para poder sustentar as famílias". Ele afirma ainda que o efeito econômico desses benefícios foram significativos e que ajudaram a tirar as pessoas da condição de miséria. "No momento em que você dificulta esse acesso, a distância entre ricos e pobres aumenta".

Sobrecarga das mulheres

O medo de não saber como será o futuro também atinge a esposa de Manassés, Rita de Freitas. A autônoma nunca trabalhou formalmente e começou a pagar a contribuição própria apenas em 2013, já com 44 anos. "Eu até queria ter começado a pagar antes, mas era muito caro. Somente quando fiquei sabendo da contribuição através do Sebrae é que fui pagar", explica. A contribuição citada é válida para quem possui o cadastro de Micro Empreendedor Individual (MEI). Neste caso, o recolhimento é de 5% do valor do salário mínimo vigente.

Apesar de menor do que para o regime geral, Rita relata que o valor da contribuição ainda faz falta no orçamento. "Mas tem que pagar. Pra tentar garantir uma velhice melhor". Ela admite que ficou até desestimulada a continuar contribuindo com a proposta. "Não sei nem se vou estar viva ainda quando puder me aposentar", destaca.

Reginaldo ressalta que as mulheres precisam de uma diferenciação em relação ao regime de Previdência devido à dupla jornada. "Além disso, muitas atividades das mulheres estão ligadas à Saúde e Educação, setores que desgastam bastante".

Preocupação antecipada

A filha mais nova do casal não escapa da preocupação. Aos 24 anos, Lorena de Freitas ainda não começou a contribuir. "Não tive emprego formal, porque não consegui", diz a estudante de Letras. Apesar de ter começado a pensar um pouco sobre o assunto da Previdência, ela afirma não pretender seguir a carreira no magistério. "Quero algo na área de gastronomia. Minha formatura está prevista para o final de 2020, então ainda deve demorar pelo menos uns dois anos para eu começar a contribuir", conclui, apreensiva.