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Meu pai, meu amigo


Por Cecília Cavalcante, filha de Hugo Cavalcante.

Ilustração por Louise Anne, filha de Luiz Carlos de Melo Dutra
 
De longe é o sentimento mais bonito que guardo dentro do peito. A relação que eu tenho com meu pai é intensa desde cedo. Costumo dizer para ele baixinho: meu pai, meu amigo. Amor construído ao longo de uma vida. Carrego no coração as memórias mais doces que alguém pode ter. Ele sempre trouxe consigo a figura de um homem tranquilo e de olhar sereno. Meu pai fala com o olhar. E que olhar. Sempre viveu de forma leve procurando enxergar no outro a bondade. Qualidade essencial na formação do caráter. Assim, eu vejo a vida seguindo o exemplo repassado em casa.

Lembro com carinho de todo esforço feito para acompanhar a minha vida. Sempre fui o xodó da casa. A filha caçula e que meu pai fazia questão de estar presente desde os primeiros passos, das primeiras palavras e experiências. Cedo ele se aposentou. Por isso, sempre foi o meu companheiro. Era meu motorista e meu chamego. O amigo das minhas amigas. O pai divertido. Sempre com uma tirada inteligente. De uma alegria contagiante. Quem conhece meu pai se apaixona por ele.

O gosto pela música é herança dele. Os domingos na minha casa eram sempre divertidos. Na vitrola, artistas consagrados. Nelson Gonçalves com a sua boemia era o preferido. De lado sempre uma cachacinha com avoante e farofa. Eram assim os meus domingos. Até hoje, consigo cantarolar músicas de Nelson por conta das memórias afetivas que tenho dessa época.

Uma das paixões são os pássaros. A casa grande do Montese já não existe mais, porém o canto da graúna que ele criava ainda ecoa. O cheiro de mato molhado ronda a memória. A calmaria da Rua Edite Braga não pode ser esquecida. A brincadeira dos meninos na rua foi deixada de lado. Quanta saudade eu tenho de um Montese com gosto de velha infância. Tudo isso já não existe mais. Já faz tanto tempo, mas parece que foi ontem.

O tempo passou e agora as memórias que construo ao longo dos dias são de uma doce velhice. Agora é ele quem precisa de mim. Do meu colo, do meu carinho e do meu aconchego. A memória já não é mais a mesma. As rugas no rosto são muitas. Cada uma delas conta uma história. São tantas por tantas vezes repetidas, que não canso de ouvir.

Nossos momentos juntos são sempre alegres. Ele com o pandeiro na mão e eu com a gaitinha numa sinfonia desafinada. Somos uma dupla: os inimigos do samba. E assim o tempo vai passando. A casa toda se envolve e entra na brincadeira. Como é doce o meu pai. O desejo é que os ponteiros do relógio parassem e o momento ficasse ali eternizado como numa pintura de Johannes Vermeer.

Não me canso de olhar para o meu velho e meu amigo e tentar de alguma forma eternizar os momentos que vivemos juntos. Ele é alegria pura que contagia e se propaga. Os passos já são apertados. A voz ainda é firme. O riso é frouxo e assim as memórias continuam sendo construídas. O tempo passa e a idade avança. O desejo é continuar construindo memórias.

Memórias afetivas que um dia devem se transformar em lembranças. Momentos marcados no coração, onde ninguém pode chegar a não ser eu e ele. Porque tudo o que vivemos é nosso e faz parte do que somos. A confiança entre nós é única e nada abala.