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‘Deixei descrito tudo que deveria ser feito caso eu não voltasse do hospital’, relata jornalista de Sobral com Covid-19


Confira o relato na integra do jornalista Marcelino Junior diagnosticado com a covid-19 na cidade de Sobral:

“Eu sou a cara da Covid-19

Em meados de março, já seguindo a recomendação de ficar em casa, em quarentena, dada pela Organização Mundial da Saúde, o governo do Ceará e, consequentemente, a prefeitura de Sobral, cidade onde moro no Norte do Estado, comecei a sentir os sintomas de uma gripe forte: febre intensa, garganta inflamada, com secreção, dores pelo corpo, um dor de cabeça tremenda, que não passava, e muita coriza.

Me auto mediquei, como é costume a muitos brasileiros, e fiquei bem. Recobrei, aparentemente, a saúde. Todos os sintomas desapareceram, e segui adiante. Cerca de uma semana depois, a tal gripe voltou com tudo, e trouxe com ela a garganta seca, lábios rachados, a dor de cabeça insistente, e um tipo de tosse que nunca havia sentido na vida. Ela me tirava o ar. Sem falar na falta de apetite, gosto e cheiro da comida. Ao mínimo esforço, lá estava eu, arquejando, feito peixe fora d’água. Bocejar ou espirrar me era impossível, ou melhor, era um pesadelo.

Tenho 51 anos, não sou fraco para doença. Digo, não sinto dor no dedinho mindinho do pé faz anos. Quase nem gripo. Adquiri diabetes a cerca de dois anos. Me medico todos os dias, e estou bem. E foi, justamente, esse detalhe, que me preocupou, pois a doença facilita o vírus a dar cabo mais rápido da vítima de sua maldita influência. Numa terça-feira, no início de abril, não aguentei a falta de ar e fui a um hospital na minha cidade, onde estão sendo tratados os casos graves de Covid-19.

Tenho três bichos que amo: Cibele e Nina (duas cadelas) e Rayra, uma gata (meu xodó). As três não largavam do meu pé, antes do hospital. A todo momento em cima de mim, me cheirando, lambendo, ficando muito perto. Senti que elas sentiam que algo não ia bem comigo. Essas criaturas têm muita sensibilidade, captam o que nós não captamos. Numa terça-feira decidi, com meu companheiro, que era hora de procurar ajuda médica. Não dava mais para tentar ser forte, a até negar que existia a possibilidade de eu estar doente. Que era um mal comum.

Apesar da fé que tenho, tenho que ser realista e prático, meu dia vai chegar, assim como o de todos nós; sendo assim, deixei descrito tudo que deveria ser feito caso eu não voltasse do hospital. Caso eu morresse por lá mesmo. Tipo, coisas a serem resolvidas na minha ausência, contas, senhas de banco, e-mail, enfim tudo a ser resolvido. Nos abraçamos e, ao sair da casa, olhei para trás, e a cara que minhas criaturinhas fizeram para mim foi de cortar o coração. Chorei copiosamente até o carro, me sentei no banco do motorista e desabei.

Meu parceiro, que não dirige, me perguntou como eu estava, e eu disse que me deixasse ali por alguns segundos. Chorei muito, depois respirei fundo. Minha mão tremia tanto que quase não consegui ligar o carro. O cansaço me dominava, a falta de ar me sufocava. Consegui ligar o carro e partimos. Já no hospital, por volta das 20h30, passei por uma triagem, contei meu drama, quase sem poder falar, e fui atendido pelo médico, cerca de uma hora depois, mesmo tendo sido identificado como caso emergencial. Depois fui levado a uma saleta, onde, sem cerimônia, me espetaram o braço esquerdo para tirar sangue para exames, e o direito para receber soro (foram três bolsas seguidas). Éramos três homens nessa sala. Um deles já estava lá, o outro chegou depois de mim. Quando os dois foram embora, liberados pelo médico, eu tremi na base.

Me levaram de cadeira de rodas para fazer uma tomografia, e me deixaram no mesmo lugar, recebendo soro. Posso dizer, sem ressalvas, que essa foi a pior madrugada da minha vida. A essa hora, o companheiro já havia sido convidado, gentilmente, por um funcionário do hospital a ir embora para casa, e esperar por notícias. Minha cabeça latejava, a vista estava turva, por conta do diabetes, além de uma fome canina. Minhas extremidades (por conta da doença) começaram a formigar e adormecer. O medo aumentou. Foi aí que a mente, essa traiçoeira começou a me fazer pensar mil coisas. Posso dizer, sem exagero, que a morte foi minha única companheira naquele momento, cantando suave ao pé do meu ouvido que tudo ia ficar bem, que já, já aquilo tudo iria passar. O descanso chegaria. Me senti frio, o corpo gelado mesmo. E a dor…tanta dor…

Um filme veio na minha cabeça: tudo passou muito rápido, mas eu não perdi um momento sequer dele. As alegrias, frustrações, amigos, pessoas que me fizeram bem, outras nem tanto. Meus erros, meus pais, irmãos, vitórias, conquistas e perdas, relacionamentos sem futuro, outros promissores, mas que ficaram para trás, por erro meu ou da outra pessoa, enfim, eu estava ali, entregue e cercado por angústia, dúvida e uma única certeza, dessa vez vou embora mesmo, por conta de algo microscópico surgido do outro lado do mundo, que me pegou aqui, na outra ponta. É, a amplitude das andanças do homem e de seus produtos é inegável nesse globo.

Sofri por toda a madrugada. Sem sono, com os membros coçando, a febre, a dor de cabeça e a falta de ar (mais controlada), sempre presente. Minha preocupação com o outro de casa aumentou. Como teria voltado? O que estaria ele pensando agora, que eu morri? Enfim, pela manhã, com fome e os mesmos sintomas, comecei a esfregar as mãos e andar pela sala em círculos, para movimentar as pernas, dormentes. Passei a tomar água, muita água. Quando o sol bateu na sala, sentei no único espaço onde os raios tocavam. Dei uma de Super Homem e sentei lá. Relaxei. Senti o corpo mais aquecido, mais vivo. Me deram um suco às 9h, uma sopa, às 11h, e me transferiram, por volta de 1h para outro hospital, de atendimento intermediário. E lá vou eu de ambulância.

Passei ao lado da rua onde moro, meu coração apertou. Vontade de descer e sair correndo feito um louco. Me segurei. A mente viaja, eu falei antes. Cheguei ao hospital, fui internado, isolado, recebi uma bata, lençóis de cama, um prato com colher, escova de dentes e creme dental, além de uma toalha. Tomei um banho, me deitei e fiquei aguardando atendimento, ainda sofrendo os horrores no meu corpo. Um tempo depois, recebi soro, passei a tomar meus remédios para diabetes, e melhorei um pouco. Fiz um exame de garganta e nariz, que foram juntados ao de sangue para obter respostas. Na minha ficha, colada acima da cama, lia-se: inconclusivo para Covide-19.

A equipe de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, assim como o pessoal da limpeza, me tratava como um ET, e com razão. Ninguém ainda sabe muito sobre esse novo corona, e suas peripécias; até onde ele pode bagunçar com seu corpo e nosso mundo social, financeiro e político. Todos muito bem paramentados e cuidadosos me fizeram crer que eu poderia sair dali vivo e recuperado. Não tenho palavras para agradecer a dedicação e apreço que tiveram pela minha vida, me colando para cima, para tentar melhorar meu humor e reativar minha fé. Todos estão de parabéns, no Hospital Dr. Estevam. Depois recebi de casa meu celular, edredom, ventilador, coisas de higiene pessoal, e um livro do Nélson Rodrigues (que eu protelava a leitura fazia tempo), que me salvou do tédio e da angústia.

Alguns amigos foram informados da minha situação. Falar com eles, me ajudou a melhorar, não tenho dúvidas. Outros, deixei para falar depois, conforme a saúde voltasse. Mas a sensação de impotência e o isolamento, consequência da gravidade da doença, é que mexia comigo. Era acordado às 5h, trocava de bata, lençóis e tomava banho. O dedo era furado, cerca de 3 a quatro vezes por dia, para ver a glicemia. A dieta, regrada, chegava em horários determinados. A equipe passava o plantão todos os dias, e falava de mim, como se eu não estivesse ali. A essa altura, eu já não me governava. Tinha que dizer se havia feito cocô, xixi, no tempo habitual, e se havia algo estranho nesse processo.

Diariamente, verificavam os batimentos cardíacos, a pressão, e a temperatura. Passei a escolher qual dedo seria furado, afinal, alguns pegavam qualquer um e metiam a agulha. Pensei: quero, pelo menos, escolher o dedo para furar, já que não decido por mais nada sobre mim. Apesar de toda essa movimentação, a solidão se estendia, além do medo de saber se meu parceiro estava bem em casa. A cabeça também dava voltas para eu lembrar por onde passei, com quem tive contato; para saber de quem eu poderia ter pego a doença. Sou jornalista, e fiz algumas matérias em um período ou outro da quarentena; posso ter me infectado nesses momentos, nunca saberei.

Uma coisa que mexia com meu humor, ao ver as notícias e as redes sociais, eram as piadas, a descrença, a negação de muitos sobre a letalidade da Covid-19. Eu pensava: é porque não chegou na casa deles, não levou a mãe, o pai, um filho ou parentes; é por isso que brincam, esculacham, bebem e se juntam para ver as famosas lives, dos ídolos que eles ajudaram a enriquecer, e que apesar da boa vontade, ainda lucram com os tais shows. Uma pena sermos assim. É lastimável, nossa situação nesse mundo em que vivemos. Eu sei as lições que o vírus me deixou; penso em como assimilar tudo isso, agora que sigo vivo, e que venci mais esse obstáculo em meio século de vida.

Recebi um companheiro de quarto, positivo para o Corona. Veio de outra cidade. O medo, a dúvida sobre o que nos ocorreria, e o isolamento do mundo, já quem nem visitas poderíamos ter, nos aproximou rápido. Falamos de nossa vida passada e presente, era o que tínhamos, até então, já que o futuro, apesar de estar ali, segundo após segundo, ainda era bem incerto para nós. Dividimos o ventilador, lanches (que um amigo dele, que mora na cidade, passou a enviar), e nossas histórias de vida. Ficamos íntimos, amigos mesmo, eu creio. Foi bom, nos revigorou e nos deu nova perspectiva, apesar de quase todos os dias chegarem novos pacientes, e um deles ter morrido.

O meu resultado deu positivo para A Covid-19. Nesse meio tempo, eu já estava recuperado. Meu organismo resistiu bravamente ao mal que se apossou dele. E nos catorze dias de tratamento e isolamento, saí vivo para contar essa história. Me despedi de meu novo amigo, onde nos emocionamos quando reafirmamos que ele, em breve, também sairia dali para sua família; e me emocionei na recepção do hospital, ao agradecer a todos aqueles heróis que me salvaram a vida, que também se emocionaram na minha saída. Me ofereceram uma viagem de ambulância até em casa, à qual educadamente recusei. Me perguntaram se eu havia ligado para me pegarem no hospital. Eu disse que não, que morava ali perto e iria a pé. A pé?, Perguntaram, e eu disse que sim.

Saí caminhando com minha sacola, de máscara, e me sentindo um pássaro que acabara de ser libertado de sua isolada e velha gaiola, que por puro egoísmo, alguns mantém para ouvir um canto que os distraia, todos os dias. Que triste! O sol estava forte, logo comecei a suar, mas o cansaço não veio, os passos foram ficando mais rápidos, mais enérgicos, quase uma corrida. O ar, aquele fio de vento, que a gente nem lembra que nos invade os pulmões, e sai levando nossas toxidades internas, estava lá, comigo, me fazendo lembrar que eu venci essa batalha. Cheguei em casa suado, enérgico. Apesar das recomendações, o abraço foi terno, necessário. Mais um nesses 6 anos de união. Os bichos fizeram a festa habitual, latiram, correram, pularam e cima de mim…a gatinha miou, e eu a peguei nos braços, como sempre faço e a apertei.

A ciência ainda não sabe se posso ser reinfectado, ou se, por algum motivo, o vírus pode voltar a agir, ou se os anticorpos que possuo são suficientes para me dar imunidade. Creio, rezo, que em breve essas dúvidas sejam respondidas, assim como a chegada de uma vacina. Posso dizer que vi a morte de perto. Ela me disse que somos frágeis, muitos frágeis. Muito mais do que imaginamos, diante da vida, esse mistério. Também disse, que nossa fé está aí, mas não é só isso, que há algo mais além. Penso que só saberia de mais coisas, se tivesse atravessado aquela porta que ela me mostrou. Hoje, recuperado, quero que saibam que sou mais um a ter a cara da Covid-19, que ela faz parte de mim e eu dela, que somos um, e que mesmo tendo assimilado isso no corpo e na cabeça, eu continuo o mesmo: com defeitos, qualidades, medos, dúvidas, erros, certos, e minha fé inabalável, como sempre tive. E, só para lembrar; fique em casa, se preserve e aos seus.