6 de nov. de 2020

Sobralense de 89 anos supera efeitos da quarentena com produção de bonecas de pano



Teresinha Farias Brito atravessou a infância sem bonecas. Nascida em Várzea Comprida – povoado invisível no mapa do Ceará, localizado entre os municípios de Cariré e Groaíras – ela é a mais velha de 17 filhos. A dificuldade da família em prover o sustento para tanta gente se refletiu de várias formas, impactando diretamente na trajetória da primogênita: tinha que ajudar a cuidar dos irmãos e na condução dos afazeres domésticos.

Assim, pouco foi o contato dela com brinquedos quando pequena, mas recorda de uma experiência marcante. Levou uma grande bronca da mãe porque, ao ir na casa de uma vizinha, ficou encantada com as bonecas lá presentes e acabou demorando mais tempo que devia.

“Pedi até uma boneca a uma das filhas dessa vizinha e ela não me deu. Então, fiz a promessa de aprender a fazer as minhas próprias e, quando isso acontecesse, daria a quem gostasse e me pedisse uma”, conta.

Dito e feito. Hoje, aos 89 anos, dona Teresinha distribui as dezenas de bonecas que aprendeu, sozinha, a confeccionar – um feito atingido somente na terceira idade, com todos os filhos criados. Os mimosos objetos ocupam o largo sofá da casa onde reside, em Sobral, interior cearense, e se multiplicaram ainda mais neste período de quarentena, quando a aposentada, integrante do grupo de risco da Covid-19, precisou cumprir, com maior severidade, o isolamento social.

“Fazer as bonecas tem me ajudado a ocupar o tempo e esquecer os problemas e saudades da família. A primeira que confeccionei foi para a minha neta, Lara Brito, e também já presenteei minhas filhas e outras netas. Além disso, dou e vendo para quem gosta”, detalha.

Atravessamentos

Engana-se quem pensa que as criações ficam restritas apenas ao círculo familiar. As bonecas de pano de dona Teresinha também ocupam as mãos de pessoas em Fortaleza, São Paulo (SP), Brasília (DF), Campo Maior (PI), Porto Velho (RO), Barreiras (BA) e, claro, Sobral. O incentivo para que a senhora continue produzindo é grande, visto que a atividade, além de ser um passatempo, igualmente é encarada por ela como uma terapia.

“Também confecciono almofadas e cobertores com tecidos de algodão e fios”, sublinha. “A rotina da produção das bonecas é diária e por etapas: faço o recorte do corpo, braços, cabeça e roupa. Logo após, costuro. Esse processo é demorado, pois, depois de costurar o corpo, tem que fazer o enchimento com algodão. Finalizo com os acessórios disponíveis”.

São três a quatro bonecas produzidas por dia. Munida de tecido de algodão, linhas de costura, lã, fitas, rendas e outras peças para decorar os brinquedos, a artesã traz ao mundo mimosos corpinhos, cada um vestido com uma roupinha diferente e revestido de muito carinho e atenção. 

O desafio, segundo ela, fica por conta apenas da dinâmica de costura, pois ou é feita manualmente ou por uma das filhas, na máquina. “Cada boneca tem seu vestido, feito com muitos detalhes, e decorado de acordo com o material que possuo em casa – pode ser fitas ou rendas, por exemplo. Não tem moldes preparados, são recortados do mesmo modelo, mas todos feitos com muito amor”, completa.

Continuação

Caso surja a dúvida de qual boneca é a preferida da habilidosa senhora, dona Teresinha não titubeia: todas são especiais, visto que lhe devolveram o brilho maior dos primeiros anos de existência. Não à toa, a pretensão é de nunca parar com a produção das peças.

“Enquanto puder e tiver vida, farei, pois é algo de que gosto muito. Amo fazer minhas bonecas (minhas caretinhas)”, gargalha, revelando o apelido que dá às criações.

Para uma das filhas – a professora Maria do Carmo Farias Brito, de 42 anos – o fato de a idosa estar recorrendo à atividade manual neste momento é sinônimo de revigoramento do viver. A mãe, segundo ela, é o bem mais precioso da família. Vê-la costurando outras possibilidades representa esperança e satisfação. 

“Mantê-la ocupando o tempo com as bonecas tem sido um alívio, pois tememos muito que ela tenha novamente uma depressão, algo que é bastante complicado na idade dela”, situa Maria do Carmo. “Durante esse momento de pandemia, não a levamos mais para passear na casa de suas irmãs e na da prima, Julieta, a quem quer muito bem. Também evitamos que outras pessoas a visitem e ela deixou de ir à igreja. As bonecas, então, são a alegria”.

Maria afirma que os objetos, no momento, estão disponíveis para venda apenas na própria casa onde mora, com valores oscilando entre R$ 5 e R$ 10. Contudo, a família está em fase de preparação de um perfil no instagram para apresentar ao mundo as peças feitas por dona Teresinha, já bastante famosas em solo sobralense.

“As pessoas sempre gostam das bonecas e elogiam muito pelo trabalho bem caprichado e o carinho que ela demonstra ao realizá-lo. Acham todas muito bonitas e se admiram por minha mãe ter aprendido sozinha a fazer, e com tanto carinho”, destaca a filha, que, feito a mãe, também não teve bonecas quando criança, mas hoje possui várias dadas de presente pela genitora.

“Praticamente todas as mulheres da família têm uma ou mais bonecas feitas por ela, desde as filhas, até as netas e noras. É algo para recordar pra vida toda”, conclui. Singelos instrumentos inscritos no infinito.

DIEGO BARBOSA / DIÁRIO DO NORDESTE


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